“Arte sempre foi, é e será espelho da humanidade”
Sergio Gonçalves da Cunha[1]
Fico muito feliz pelo honrado convite e me sinto muito “em casa” ao poder contribuir com este interessante projeto do Prof. Haroldo que é a criação deste espaço democrático de trocas de experiências e idéias.
Eu e o meu grande amigo Prof. Haroldo Granja (além de outros nobres amigos de classe) chegamos ao final de mais uma etapa de nossas vidas profissionais e acadêmicas – a conclusão de nossos seminários na UNR[2], onde cursamos nosso doutorado – e talvez o maior desafio agora (além de todas as demandas que ainda temos até concluirmos nossas teses) é tentar responder a pergunta: Qual a principal e real função da arte na educação e na vida das pessoas? A questão é obviamente ampla demais e nós, enquanto pesquisadores das ciências educacionais, seríamos ingênuos ou até mesmo levianos ao intentar buscar uma resposta para tal questão extremamente complexa até mesmo por questões epistemológicas, ontológicas e axiológicas com tendências multilaterais, abertas e por conseqüência pessoais. Por outro lado, traçar uma visão global apenas como início de enriquecedores debates, não é uma tarefa impossível.
As manifestações artísticas exercem diferentes influências em cada ser humano. Os objetivos de uma produção ou consumo de arte, transcendem o limiar da sensação de prazer em ouvir uma bela música, assistir um grande espetáculo ou mergulhar na beleza de uma pintura. Estamos falando da essência da arte e seu objetivo maior onde é por meio desta que a própria vida humana se torna possível. Não tratamos aqui somente do fazer artístico engendrado pelos artistas, mas sim pela atividade criadora! Esta que move o ser humano, que o desperta para as soluções do mundo e que o ajudou desde os seus primórdios a construir as primeiras ferramentas para o caça e o plantio. Ao mesmo tempo ajudou o homem a estabelecer as fundamentais relações humanas através dos seus rituais, da pintura, da música e da dança.
Muito se fala das cinco artes clássicas: as três na dimensão do espaço (pintura, escultura e arquitetura) e as duas na dimensão do tempo (a música e a dança), hoje temos muitas outras, mas a principal arte que devemos buscar é a de VIVER. Viver em sua plenitude estando calçados nos valores morais, éticos, religiosos e sempre buscando de forma criativa soluções para a transformação da perversa lógica hedonista e individualista de mundo.
O mesmo potencial criativo que mora na alma humana e que pode construir pelo amor é o que pode destruir pela guerra. Façamos da arte hoje – que sempre teve um poder persuasivo e transformativo extraordinário no ser humano – um instrumento contextualizado para a mudança positiva não só nas escolas, mas em toda a vida social. Várias vezes eu comentei com meus alunos onde é sabido que hoje mais de 80 % de tudo que se produz na internet está ligado à diversão e arte, mas que infelizmente boa parte é utilizada como forma de alienação coletiva, enquanto uma ordem hegemônica é imposta e mantida sem muitas dificuldades. Por outro lado me recordo das brilhantes experiências de Fayga Ostrower[3] quando trabalhou artes com operários de uma fábrica: o mais importante não era conhecer técnicas rebuscadas de pintura, mas sim tomar posse dos temas retratados e estabelecer paralelos com a nossa sociedade atual para a busca de soluções em nosso hoje. Não só na Arte (onde esta tem um papel fundamental e mágico), mas em toda e Educação o que realmente buscamos é o resgate HUMANO pela auto-estima, pelos valores e pelo potencial transformador de cada um de nós. Por todo o mundo isso é uma realidade emergente como vemos, por exemplo, nos trabalhos de Jack Mezirow[4], Patrícia Cranton[5] entre outros. Para nós, a grande referência está em Paulo Freire[6] por uma “Pedagogia Emancipadora”. O século XXI deverá ser marcado pela busca da humanização plena e parte significativa das pesquisas em arte e em educação precisam priorizar esta necessidade e por isso, me vejo encantado por esta missão de pesquisar e resiginificar o papel da arte-educação nas escolas através da produção de minha tese, especialmente voltada para alunos da EJA, que por serem adultos, tem muitas experiências profissionais e de vida que sem dúvida contribuem de forma ímpar para a incansável, homeopática e infinita busca pela compreensão da tessitura que forma a complexidade da mente e do espírito humano.
[1] Doutorando em Humanidades e Artes com ênfase em Ciência da Educação pela UNR. Membro do Conselho Municipal de Educação do município de Petrópolis e docente de instituições públicas e privadas. Também é Diretor Adjunto da Escola Municipal Odette Fonseca situada na mesma cidade. Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4550941U9
[2] Universidade Nacional de Rosário – Província de Santa Fé, Argentina;
[3] Numa referência ao livro: OSTROWER, Fayga. Universos da Arte - Editora Campus, RJ, 1983, 400 páginas, ilust.
[4] MEZIROW, Jack. Transformative dimensions of adult learning / Jack Mezirow. ISBN 1 – 55542 – 339 – 6, Jossey-Bass Company, 1994. A proposta por uma aprendizagem transformativa se aplica a todos que acreditam numa formação para mudança intra-pessoal, inter-pessoal e de mundo.
[5] CRANTON, Patrícia. Understanding and promoting transformative learning: a guide for educators of adults / Patrícia Cranton – 1st ed. ISBN: 0-7879-0017-6, Jossey-Bass Company, 1994. Um exemplo de proposta para uma pedagogia que estimula a construção de conhecimento aliada ao senso crítico
[6] Faz-se alusão ao grande educador brasileiro e suas obras voltadas para os mesmos objetivos acima citados e que foram o grande alicerce de suas obras.

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